MAIS UM JEITO DE FALAR

MAIS UM JEITO DE FALAR

O desafio de aprender novos idiomas

 

Em que momento aprendemos a falar?

Antes mesmo de nascer, começamos a receber as primeiras palavras. Em algum momento dos nossos primeiros anos de vida, começamos a emitir sons, que aos poucos vão ganhando ritmo e significado através dos nossos cuidadores. É através do outro que os primeiros “ma” e “pa” viram “mamãe” e “papai”, ou que “tato” vira “sapato”. E é a partir da criação da possibilidade de compreensão que o som se transforma em fala, construindo pontes entre os seres humanos. Talvez o momento que marque o início da fala seja aquele em que recebemos como resposta ao nosso som uma palavra acompanhada de um sorriso e de um brilho no olhar…

Não conseguimos nos lembrar do momento exato em que começamos a falar porque o aprendizado do nosso primeiro idioma é um processo muito sutil e gradual, construído a cada interação com cada pessoa que cruza nosso caminho. Assim como não nos lembramos do começo, também não podemos determinar com exatidão o momento em que já dominamos um idioma, porque este é um processo sem fim – afinal, mesmo no nosso idioma natal sempre estamos aprendendo uma palavra nova ou um sotaque diferente.

Se é assim com nosso idioma, por que esperamos que o aprendizado de um novo idioma se encaixe em um número limitado de semestres? Acreditamos que ‘não sabemos falar’ outro idioma, sem perceber que o nosso idioma está recheado de palavras vindas de outras terras, e muitas são ainda compartilhadas entre vários idiomas – entre o português e o espanhol, por exemplo, a coincidência pode chegar a 85%!

Ao estudar um novo idioma, não partimos do zero. Já contamos com mais capacidades do que as que tínhamos ao aprender o primeiro – já sabemos articular palavras, transformar sons em palavras escritas, conhecemos sons que também existem em outros idiomas, palavras que se dizem da mesma forma, outras que já conhecíamos através da música ou do cinema. O principal – a capacidade de aprender – está ainda mais treinada por todos os desafios que já superamos. Mas, se isso é assim, porque para algumas pessoas continua sendo tão difícil?

Enquanto aprendemos a falar e escrever, aprendemos que nem todos os sons e nem todas as linhas servem no nosso idioma. Aprendemos que há um jeito certo de dizer e escrever cada coisa, e que todos os outros jeitos “errados” devem ser descartados se quisermos ser compreendidos – e bem avaliados. Entrar em contato com novos idiomas significa rever certezas construídas durante anos de escolarização, em especial sobre o que é “certo” ou “errado” – pois o que é certo em português pode ou não estar certo em espanhol, e provavelmente não vai estar certo em mandarim… Se você tivesse nascido em outro país, o resultado dessa construção seria diferente. Aquele “ma”, em vez de “mamãe”, se transformaria em “mamá” na Argentina, em “mère” na França ou em “mother” na Inglaterra. E nenhum desses jeitos é mais certo que o outro. Cada um deles tem seu valor em diferentes contextos.

Também precisamos enfrentar um dos maiores medos do ser humano: o de não ser compreendido. Em algum momento, podemos ter sido ridicularizados na escola por um erro de português cometido na frente dos outros. Em outros, o que dissemos foi mal interpretado pelo uso de uma palavra pouco apropriada, e colocamos em risco um negócio ou uma relação. O idioma é uma das nossas maiores fontes de conexão com as outras pessoas. Se já falando o mesmo idioma muitas falhas de comunicação acontecem, como fazer quando não temos certeza das palavras corretas a usar em um novo idioma? Para superar essas dificuldades, precisamos resgatar todos os aspectos não verbais da comunicação. A conexão com o outro depende também do tom de voz, do olhar, dos gestos… e por mais que exista variação desses elementos nos diferentes países, ainda assim eles respondem a uma base mais universal que as palavras, e podem permitir que a comunicação supere a limitação inicial do vocabulário ou da gramática, nos deixando mais à vontade para aperfeiçoar o pouco que sabemos.

Aprender um novo idioma traz uma série de benefícios que vão muito além de melhorar o currículo. Através desse aprendizado, podemos ampliar nossos horizontes, desapegar das certezas tão consolidadas, deixar de lado a segurança da zona de conforto e resgatar habilidades que andavam meio esquecidas. Seja através de um curso formal, de um site ou por conta própria, com músicas e filmes, aceitar o desafio de aprender outra língua vai acrescentar muito mais do que palavras à sua vida.

Que tal experimentar?

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Lilian Garate Castagnet
lilian@abrangente.psc.br

Psicoterapeuta bilíngue Espanhol-Português. Há 22 anos, atua nas áreas clinica e hospitalar, com experiência de intervenção em situações de crise, traumas e emergências. Terapeuta do programa “Sem Medo de Falar Novos Idiomas”.

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